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Cannabis e Artrite Reumatóide: Evidência Clínica

4 artigos citados Atualizado em: 17/02/2026

Principais Achados Clínicos

A evidência clínica para cannabis medicinal na artrite reumatoide é extremamente escassa. Uma análise abrangente de 26 revisões sistemáticas identificou apenas um único ensaio clínico randomizado que avaliou especificamente canabinoides na artrite reumatoide (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). Este estudo avaliou 58 pacientes com artrite reumatoide ativa não adequadamente controlada por medicação padrão, comparando nabiximols (spray oromucosal contendo 2,7 mg de THC e 2,5 mg de CBD por ativação) versus placebo (Blake et al., 2006).

Os resultados sugerem que nabiximols pode produzir uma redução discreta na atividade da doença, com o DAS28 diminuindo de 5,9 pontos no grupo placebo para 5,0 pontos no grupo tratamento (diferença média: 0,9 pontos menor) (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). Para dor, medida pelo componente de intensidade de dor presente do SF-MPQ, observou-se redução de 3,3 pontos no placebo para 2,6 pontos com nabiximols (diferença média: 0,7 pontos menor) (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

O estudo original reportou melhorias estatisticamente significativas em dor ao movimento, dor em repouso, qualidade do sono, DAS28 e componente de dor presente do SF-MPQ em comparação ao placebo (Blake et al., 2006). A dose média diária alcançada na semana final de tratamento foi de 5,4 ativações para nabiximols versus 5,3 para placebo (Blake et al., 2006).

Um estudo observacional mexicano com 180 pacientes ambulatoriais encontrou que 53 (29,4%) reportaram uso medicinal de cannabis, sendo que 52 (98,1%) utilizaram formulações tópicas (Galindo-Donaire et al., 2023). Entre os usuários, 47 (88,7%) relataram sintomas relacionados à doença reumática como motivação primária, e 43 (81,1%) perceberam pelo menos algum benefício relacionado (Galindo-Donaire et al., 2023).

Desenho e Qualidade dos Estudos

O único ensaio clínico randomizado disponível incluiu 58 pacientes (79,3% mulheres, idade média de 62,8 anos) com DAS28 médio de 5,9, conduzido no Reino Unido em múltiplos centros ambulatoriais (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). O período de seguimento foi relativamente curto, de 7-10 dias (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

A certeza da evidência foi classificada como baixa para atividade da doença e dor, e muito baixa para eventos adversos graves, segundo critérios GRADE (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). A evidência foi rebaixada devido ao risco de viés relacionado ao cegamento de participantes e pessoal, além de imprecisão nas estimativas (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

Uma revisão Cochrane incluiu o mesmo estudo entre neuromoduladores para manejo da dor na artrite reumatoide, classificando-o como tendo alto risco de viés (Richards et al., 2012).

Dados de Segurança

Os dados de segurança são limitados e incertos. No ensaio clínico, eventos adversos graves ocorreram em 74 por 1000 pacientes no grupo placebo versus 13 por 1000 no grupo nabiximols (RR: 0,17; IC 95%: 0,01-3,49), mas a certeza da evidência foi classificada como muito baixa (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

Eventos adversos do sistema nervoso foram mais frequentes com nabiximols: 419 por 1000 pacientes versus 148 por 1000 no placebo (RR: 2,83; IC 95%: 1,05-7,65), incluindo tontura, sensação de cabeça leve, sonolência e cefaleia (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). O estudo original reportou que a grande maioria dos eventos adversos foram leves ou moderados, sem retiradas relacionadas a eventos adversos ou eventos adversos graves no grupo de tratamento ativo (Blake et al., 2006).

A revisão Cochrane identificou que pacientes recebendo cannabis oromucosal tiveram significativamente maior probabilidade de sofrer eventos adversos (RR: 1,82; IC 95%: 1,10-3,00; NNH: 3), sendo os mais comuns tontura (26%), boca seca (13%) e sensação de cabeça leve (10%) (Richards et al., 2012).

Limitações da Evidência Atual

As limitações da evidência atual são substanciais. A base de evidência consiste em apenas um estudo com 58 participantes e seguimento de curto prazo, inadequado para uma condição crônica (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). Os autores enfatizam que qualquer extrapolação para outras doses, compostos, formas terapêuticas e vias de administração pode ser prematura (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

Os resultados são aplicáveis apenas a pacientes com artrite reumatoide ativa não controlada e podem não se aplicar a pacientes com comorbidades como transtornos psiquiátricos, abuso de substâncias, distúrbios cardiovasculares, renais ou hepáticos graves, ou história de epilepsia, pois estes foram excluídos do estudo (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

Nenhum estudo foi encontrado examinando incapacidade física ou qualidade de vida (Schulze-Schiappacasse et al., 2022). A probabilidade de que as conclusões desta análise mudem com evidências futuras é alta, dada a escassez de estudos sobre o tópico e a certeza muito baixa da evidência (Schulze-Schiappacasse et al., 2022).

Referências Científicas

  1. [1] Schulze-Schiappacasse, Clara; Durán, Josefina; Bravo-Jeria, Rocío; Verdugo-Paiva, Francisca; Morel, Macarena; Rada, Gabriel (2022). Are Cannabis, Cannabis-Derived Products, and Synthetic Cannabinoids a Therapeutic Tool for Rheumatoid Arthritis? A Friendly Summary of the Body of Evidence.. Journal of clinical rheumatology : practical reports on rheumatic & musculoskeletal diseases. PMID: 33859125
  2. [2] Galindo-Donaire, José R; Hernández-Molina, Gabriela; Fresán Orellana, Ana; Contreras-Yáñez, Irazú; Guaracha-Basáñez, Guillermo; Briseño-González, Oswaldo; Pascual-Ramos, Virginia (2023). The role of personality traits on self-medicated cannabis in rheumatoid arthritis patients: A multivariable analysis.. PloS one. PMID: 36634127
  3. [3] Blake, D R; Robson, P; Ho, M; Jubb, R W; McCabe, C S (2006). Preliminary assessment of the efficacy, tolerability and safety of a cannabis-based medicine (Sativex) in the treatment of pain caused by rheumatoid arthritis.. Rheumatology (Oxford, England). PMID: 16282192
  4. [4] Richards, Bethan L; Whittle, Samuel L; Buchbinder, Rachelle (2012). Neuromodulators for pain management in rheumatoid arthritis.. The Cochrane database of systematic reviews. PMID: 22258992

As informações desta biblioteca são baseadas em revisão da literatura científica disponível e têm propósito exclusivamente educacional. A prescrição de cannabis medicinal deve considerar a avaliação clínica individual, histórico do paciente e regulamentação vigente. Decisões terapêuticas são de responsabilidade exclusiva do prescritor.

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