Principais Achados Clínicos
Prevalência de Uso
Estudos observacionais internacionais demonstram que o uso de cannabis para endometriose é uma prática relativamente comum. Em survey com 912 participantes de países de língua alemã, 17% (n=114) reportaram uso de cannabis ou produtos relacionados como estratégia de automanejo para sintomas de endometriose (Jasinski et al., 2024). Dados similares foram observados em estudo internacional com 889 respondentes, onde a idade média dos usuários foi de 30,3 anos (Sinclair et al., 2025).
Eficácia Reportada pelos Pacientes
Os dados sugerem eficácia superior da cannabis comparada aos tratamentos farmacológicos convencionais. No estudo alemão, a cannabis foi classificada como a estratégia de automanejo mais efetiva, com eficácia autorreportada de 7,6 em escala de 0-10 (Jasinski et al., 2024). As maiores melhorias foram observadas em sono (91%), dor menstrual (90%) e dor pélvica não-cíclica (80%) (Jasinski et al., 2024).
Em análise retrospectiva de 252 participantes com 16.187 sessões registradas, a dor pélvica foi a indicação primária em 42,4% dos casos, seguida por distúrbios gastrointestinais (15,2%) e cãibras (14,9%) (Sinclair et al., 2021). O modelo estatístico demonstrou eficácia basal média de 31,98 (IC 95% 31,26-32,71, p<0,0001), com maior efeito para sintomas gastrointestinais (aumento estimado de 9,02; IC 95% 8,15-9,90, p<0,0001) comparado à dor (Sinclair et al., 2021).
Redução no Uso de Medicamentos Convencionais
Os dados sugerem potencial efeito substitutivo da cannabis sobre medicações convencionais. Aproximadamente 90% dos usuários conseguiram reduzir a ingestão de analgésicos, com quase metade alcançando redução superior a 50% (Jasinski et al., 2024). Em estudo neozelandês, 81,4% dos respondentes indicaram que a cannabis reduziu o uso de medicações habituais, com 59% conseguindo interromper completamente alguma medicação, mais comumente analgésicos (66%) (Armour et al., 2021).
Vias de Administração e Composição
A via inalatória foi predominante, representando 67,4% de todas as formas de administração utilizadas, incluindo vaporizador (40,6%) e combustão (25,9%) (Sinclair et al., 2021). Formas orais representaram 32,3% do uso, incluindo óleos (25,0%), comprimidos (3,5%) e comestíveis (2,4%) (Sinclair et al., 2021).
A dosagem variou conforme o método de administração, com dose mediana de 9 mg/mL para formas inaladas (IQR: 5-11) e 1 mg/mL para formas orais (IQR: 0,5-2) (Sinclair et al., 2021). Métodos inalados apresentaram maior razão THC:CBD (mediana de 90), enquanto formas ingeridas mostraram maior razão CBD:THC (mediana de 0,08) (Sinclair et al., 2021).
Evidência Pré-clínica com CBD
Estudos experimentais demonstram potencial terapêutico do cannabidiol (CBD) isolado. Em modelo murino de endometriose, CBD 5 mg/kg demonstrou reduções significativas na área superficial dos implantes endometrióticos (p=0,0213), status oxidativo total sérico (p=0,0491), índice de estresse oxidativo (p=0,0056), IL-6 (p=0,0236) e TNF-α (p=0,0083) comparado ao grupo controle (Okten et al., 2023). O grupo CBD5 também apresentou menor intensidade média para VEGF em células epiteliais e estromais (ambos p=0,002) comparado ao grupo leuprolida (Okten et al., 2023).
Desenho e Qualidade dos Estudos
Estudos Observacionais
A evidência atual baseia-se predominantemente em estudos transversais e observacionais retrospectivos. O maior survey incluiu 912 participantes de países de língua alemã, utilizando questionário online distribuído através de grupos de apoio em mídias sociais (Jasinski et al., 2024). Estudo internacional subsequente coletou 889 respostas de 28 países, com idade média de 30,3 anos (Sinclair et al., 2025).
A análise retrospectiva canadense utilizou dados do aplicativo Strainprint™, incluindo 252 participantes com 16.187 sessões registradas entre abril de 2017 e fevereiro de 2020 (Sinclair et al., 2021). Este desenho permitiu análise longitudinal do uso de cannabis com produtos regulamentados e padronizados.
Ensaios Clínicos
Apenas um ensaio clínico randomizado foi identificado, conduzido na Austrália comparando cannabis inalada (16% THC) mais óleo oral de CBD (100mg/mL) versus óleo de CBD isolado versus placebo (Chesterman et al., 2025). O estudo planejava recrutar 63 participantes (21 por grupo), mas conseguiu randomizar apenas 12, dos quais 7 abandonaram o estudo (Chesterman et al., 2025). A viabilidade de recrutamento e retenção foi considerada baixa, com falha atribuída principalmente à exigência de abstinência de direção e alta taxa de abandono (Chesterman et al., 2025).
Estudos Pré-clínicos
Estudos experimentais utilizaram modelos murinos bem estabelecidos. O estudo com CBD empregou 36 ratas Wistar albino com implantes endometriais induzidos cirurgicamente, randomizadas em quatro grupos incluindo controles com leuprolida e solução salina (Okten et al., 2023). Análises incluíram parâmetros bioquímicos séricos e peritoneais, além de avaliação imunohistoquímica dos tecidos endometrióticos (Okten et al., 2023).
Dados de Segurança
Eventos Adversos Reportados
No ensaio clínico australiano, foram reportados 10 eventos adversos (2 não relacionados à cannabis e 8 possivelmente relacionados) e 2 eventos adversos graves (ambos não relacionados à intervenção) (Chesterman et al., 2025).
Em estudos observacionais, o efeito colateral mais comum foi fadiga aumentada (17%), seguido por náusea e vômito aumentados (5%) (Jasinski et al., 2024). Pequeno número de usuários (>5%) reportou piora de sintomas psicológicos (Jasinski et al., 2024).
Perfil de Usuários e Fatores de Risco
Usuários de cannabis apresentaram características demográficas específicas que podem indicar maior vulnerabilidade. Comparado a não-usuários, usuários de cannabis tinham menor renda e maior probabilidade de desemprego (17% vs. 3%, p<0,001) (Jasinski et al., 2024). Além disso, mais que o dobro dos usuários de cannabis fumavam cigarros comparado a não-usuários (41% vs. 19%, p<0,001) (Jasinski et al., 2024).
Usuários de cannabis também reportaram dor mais intensa sob medicação analgésica (média 6±2 vs. 5±2 na escala numérica, p<0,001) e perceberam os medicamentos para dor como menos efetivos (4±2 vs. 5±2, p=0,001) (Jasinski et al., 2024).
Questões Legais e de Acesso
A maioria dos usuários (56,7%) acessa cannabis através de vias não-prescritas (Sinclair et al., 2025). Preocupações significativas foram reportadas relacionadas ao estigma (57,2%), custo (47,3%) e violação de leis locais (45,1%) (Sinclair et al., 2025). Mais da metade dos usuários de cannabis não-prescrita não divulgam seu uso aos profissionais médicos, citando preocupações sobre repercussões legais e julgamento social (Sinclair et al., 2025).
Limitações da Evidência Atual
Limitações Metodológicas
Os estudos observacionais apresentam limitações inerentes ao desenho. Viés de recordação e viés de não-resposta podem influenciar as respostas e enviesar a amostra em direção àqueles com sintomas mais graves ou mais favoráveis à cannabis (Sinclair et al., 2025). O viés de amostragem devido à divulgação através de mídias sociais pode resultar em participantes mais negativamente impactados pela endometriose comparado à população geral (Sinclair et al., 2025).
O único ensaio clínico falhou em atingir o tamanho amostral planejado, com apenas 4 participantes completando o estudo de um total de 12 randomizados (Chesterman et al., 2025). Esta limitação impede conclusões definitivas sobre eficácia e segurança.
Limitações dos Parâmetros Avaliados
Todos os estudos observacionais basearam-se exclusivamente em parâmetros subjetivamente avaliados, não permitindo avaliação objetiva da eficácia da cannabis na endometriose (Jasinski et al., 2024). Os estudos não fornecem resultados específicos sobre modo de aplicação, frequência ou dosagem de cannabis e produtos derivados (Jasinski et al., 2024).
Necessidade de Pesquisa Adicional
Os autores enfatizam a necessidade urgente de ensaios clínicos investigando tolerabilidade e efetividade da cannabis para dor e sintomas associados à endometriose (Sinclair et al., 2021). Pesquisas futuras devem determinar os melhores métodos de administração, dosagem, razão THC/CBD, efeitos colaterais potenciais e efeitos a longo prazo para fornecer recomendações oficiais (Jasinski et al., 2024).
Referências Científicas
- [1] Chesterman, Susan; Mikocka-Walus, Antonina; Sinclair, Justin; Druitt, Marilla; Furyk, Jeremy; Evans, Subhadra; Abbott, Jason; Eathorne, Alexandra; Martin, Alexander; Ng, Cecilia; Nguyen, Lisa; Oldfield, Karen; Romano, Daniel; Sarris, Jerome; Semprini, Alex; Stanley, Katherine; Armour, Mike (2025). Challenges in conducting a feasibility randomized controlled trial of medicinal cannabis for endometriosis pain in Australia.. Complementary therapies in clinical practice. PMID: 41005282
- [2] Jasinski, Victoria; Voltolini Velho, Renata; Sehouli, Jalid; Mechsner, Sylvia (2024). Cannabis use in endometriosis: the patients have their say-an online survey for German-speaking countries.. Archives of gynecology and obstetrics. PMID: 39162801
- [3] Sinclair, Justin; Eathorne, Allie; Adler, Hannah; Mardon, Amelia; Holtzman, Orit; Abbott, Jason; Sarris, Jerome; Armour, Mike (2025). 'In the weeds': navigating the complex concerns, challenges and choices associated with medicinal cannabis consumption for endometriosis.. Reproduction & fertility. PMID: 40445778
- [4] Sinclair, Justin; Collett, Laura; Abbott, Jason; Pate, David W; Sarris, Jerome; Armour, Mike (2021). Effects of cannabis ingestion on endometriosis-associated pelvic pain and related symptoms.. PloS one. PMID: 34699540
- [5] Okten, Sabri Berkem; Cetin, Caglar; Tok, Olgu Enis; Guler, Eray Metin; Taha, Sevde Havva; Ozcan, Pinar; Ficicioglu, Cem (2023). Cannabidiol as a potential novel treatment for endometriosis by its anti-inflammatory, antioxidative and antiangiogenic effects in an experimental rat model.. Reproductive biomedicine online. PMID: 36997400
- [6] Armour, Mike; Sinclair, Justin; Noller, Geoff; Girling, Jane; Larcombe, Maria; Al-Dabbas, Mahmoud A; Hollow, Erika; Bush, Deborah; Johnson, Neil (2021). Illicit Cannabis Usage as a Management Strategy in New Zealand Women with Endometriosis: An Online Survey.. Journal of women's health (2002). PMID: 33275491
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