Principais Achados Clínicos
Três ensaios clínicos controlados avaliaram canabinoides na doença de Huntington, todos com amostras pequenas e resultados mistos quanto à eficácia sintomática.
O estudo com Sativex® (combinação equimolecular de THC e CBD) incluiu 26 pacientes randomizados em desenho cruzado duplo-cego, com 24 completando o protocolo de 12 semanas (López-Sendón Moreno et al., 2016). Após análise excluindo efeitos de período e sequência, não foram detectadas diferenças significativas nos escores motores (p = 0,286), cognitivos (p = 0,824), comportamentais (p = 1,0) e funcionais (p = 0,581) durante o tratamento com Sativex® comparado ao placebo (López-Sendón Moreno et al., 2016).
O ensaio com nabilona avaliou 44 pacientes randomizados em desenho cruzado duplo-cego, comparando nabilona (1 ou 2 mg) versus placebo (Curtis et al., 2009). A análise de qualquer dose de nabilona versus placebo mostrou diferença de tratamento de 0,86 (IC 95%: -1,8 a 3,52) para escore motor total e 1,68 (IC 95%: 0,44 a 2,92) para coreia (Curtis et al., 2009).
Um estudo mais antigo avaliou CBD isolado (10 mg/kg/dia por 6 semanas) em 15 pacientes livres de neurolépticos, utilizando desenho cruzado duplo-cego randomizado (Consroe et al., 1991). A comparação dos efeitos do CBD e placebo na severidade da coreia e outras variáveis terapêuticas não indicou diferenças significativas (p > 0,05) ou clinicamente importantes (Consroe et al., 1991).
Dados de Segurança
Os estudos clínicos demonstraram perfil de segurança aceitável para os canabinoides testados. O estudo com Sativex® confirmou segurança e tolerabilidade, sem eventos adversos graves ou piora clínica (López-Sendón Moreno et al., 2016).
O ensaio com nabilona reportou que o composto foi seguro e bem tolerado, sem episódios psicóticos (Curtis et al., 2009). O recrutamento foi descrito como direto, sugerindo aceitabilidade pelos pacientes (Curtis et al., 2009).
No estudo com CBD, a dose média diária de aproximadamente 700 mg por 6 semanas não foi tóxica em relação ao placebo (Consroe et al., 1991). Os níveis plasmáticos de CBD variaram de 5,9 a 11,2 ng/ml durante as 6 semanas de administração, com meia-vida de eliminação estimada entre 2-5 dias (Consroe et al., 1991).
Desenho e Qualidade dos Estudos
Todos os ensaios clínicos utilizaram desenhos cruzados duplo-cegos controlados por placebo, considerados padrão-ouro para avaliação de eficácia. No entanto, as amostras foram consistentemente pequenas, variando de 15 a 44 pacientes.
Uma revisão sistemática identificou que a tetrabenazina foi o único fármaco com efeito clinicamente significativo e estatisticamente significante na coreia, destacando a necessidade de evidências de maior qualidade para o manejo farmacológico da doença de Huntington (Pidgeon et al., 2013). A mesma revisão observou que a base de evidências para o manejo farmacológico da doença de Huntington é deficiente, com clara necessidade de ensaios clínicos randomizados controlados de alta qualidade (Pidgeon et al., 2013).
Limitações da Evidência Atual
As limitações incluem amostras pequenas, períodos de tratamento relativamente curtos e resultados inconsistentes quanto à eficácia sintomática. Uma revisão sistemática focada em distúrbios do movimento encontrou evidência forte para melhora significativa em sintomas neurológicos como espasmos, tremores, espasticidade e coreia após tratamento com cannabis medicinal, mas reconheceu a necessidade de estudos de maior escala para testar os benefícios em pacientes com doença de Huntington (Akinyemi et al., 2020).
Estudos pré-clínicos sugerem potencial para canabinoides menores, com revisão sistemática identificando que cannabigerol (CBG) e cannabidivarina (CBDV) demonstraram eficácia em modelos de doença de Huntington e epilepsia, respectivamente (Stone et al., 2020). CBG e seus derivados VCE.003 e VCE.003.2 foram particularmente eficazes em modelos de doença de Huntington, exibindo efeitos anti-inflamatórios significativos (Stone et al., 2020).
Referências Científicas
- [1] López-Sendón Moreno, Jose Luis; García Caldentey, Juan; Trigo Cubillo, Patricia; Ruiz Romero, Carolina; García Ribas, Guillermo; Alonso Arias, M A Alonso; García de Yébenes, María Jesús; Tolón, Rosa María; Galve-Roperh, Ismael; Sagredo, Onintza; Valdeolivas, Sara; Resel, Eva; Ortega-Gutierrez, Silvia; García-Bermejo, María Laura; Fernández Ruiz, Javier; Guzmán, Manuel; García de Yébenes Prous, Justo (2016). A double-blind, randomized, cross-over, placebo-controlled, pilot trial with Sativex in Huntington's disease.. Journal of neurology. PMID: 27159993
- [2] Curtis, Adrienne; Mitchell, Ian; Patel, Smitaa; Ives, Natalie; Rickards, Hugh (2009). A pilot study using nabilone for symptomatic treatment in Huntington's disease.. Movement disorders : official journal of the Movement Disorder Society. PMID: 19845035
- [3] Pidgeon, Connie; Rickards, Hugh (2013). The pathophysiology and pharmacological treatment of Huntington disease.. Behavioural neurology. PMID: 22713409
- [4] Consroe, P; Laguna, J; Allender, J; Snider, S; Stern, L; Sandyk, R; Kennedy, K; Schram, K (1991). Controlled clinical trial of cannabidiol in Huntington's disease.. Pharmacology, biochemistry, and behavior. PMID: 1839644
- [5] Akinyemi, Edward; Randhawa, Gavin; Longoria, Victor; Zeine, Rana (2020). Medical Marijuana Effects in Movement Disorders, Focus on Huntington Disease; A Literature Review.. Journal of pharmacy & pharmaceutical sciences : a publication of the Canadian Society for Pharmaceutical Sciences, Societe canadienne des sciences pharmaceutiques. PMID: 33064979
- [6] Stone, Nicole L; Murphy, Alexandra J; England, Timothy J; O'Sullivan, Saoirse E (2020). A systematic review of minor phytocannabinoids with promising neuroprotective potential.. British journal of pharmacology. PMID: 32608035
- [7] Consroe, P; Kennedy, K; Schram, K (1991). Assay of plasma cannabidiol by capillary gas chromatography/ion trap mass spectroscopy following high-dose repeated daily oral administration in humans.. Pharmacology, biochemistry, and behavior. PMID: 1666917
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