Principais Achados Clínicos
Os estudos controlados randomizados sobre canabinoides na doença de Parkinson apresentam resultados inconsistentes. Um estudo com CBD/THC (dose final média de 191,8 mg CBD e 6,4 mg THC diários) não demonstrou diferença significativa nos escores motores MDS-UPDRS comparado ao placebo, com possível piora na cognição e sono (Liu et al., 2024). Outro ensaio com CBD sublingual (26 mg/dia) mostrou segurança sem efeitos adversos nos sintomas motores, cognitivos ou afetivos, com melhora nos escores de nomeação do MoCA (Mitarnun et al., 2025).
Para sintomas não-motores, nabilone demonstrou eficácia superior ao placebo. Em um estudo de retirada randomizada, pacientes que continuaram nabilone (dose mediana 0,75 mg/dia) apresentaram menor deterioração nos escores MDS-UPDRS-I comparado àqueles que mudaram para placebo (diferença entre grupos: 1,63 pontos, p = 0,030) (Peball et al., 2020). Os benefícios foram especificamente observados em humor ansioso e problemas do sono noturno.
Um estudo exploratório com CBD (75-300 mg/dia) mostrou diferença significativa na qualidade de vida (PDQ-39) entre placebo e CBD 300 mg/dia (p = 0,05), mas sem diferenças nos escores UPDRS ou marcadores neuroprotectivos (Chagas et al., 2014).
Desenho e Qualidade dos Estudos
As revisões sistemáticas identificam limitações significativas na evidência disponível. Uma meta-análise não encontrou evidência convincente para recomendar o uso de cannabis em pacientes com Parkinson, identificando apenas benefício potencial para tremor, ansiedade, dor e qualidade do sono (Urbi et al., 2022). Outra revisão sistemática de 13 artigos concluiu que canabinoides mostraram capacidade de melhorar sintomas motores mais que placebo, com CBD melhorando sintomas psiquiátricos de forma dose-dependente (Varshney et al., 2023).
A qualidade metodológica varia consideravelmente, com apenas sete estudos randomizados identificados em uma revisão, cujos resultados não apoiaram a eficácia de canabinoides no tratamento de sinais motores da doença de Parkinson (Figura et al., 2022).
Dados de Segurança
Os eventos adversos relatados são predominantemente leves e transitórios. No estudo com nabilone, 77% dos pacientes apresentaram eventos adversos durante a titulação aberta, sendo os mais comuns fadiga, tontura, boca seca e sonolência (Peball et al., 2020). Dois pacientes idosos (71,7 e 74,5 anos) apresentaram confusão e delírios durante a titulação.
Um estudo de segurança de longo prazo com cannabis medicinal (dose mediana mensal de 20g, THC mediano 10%, CBD mediano 4%) em 76 pacientes seguidos por 1-3 anos não mostrou diferenças significativas na progressão da doença ou exacerbação de sintomas neuropsiquiátricos comparado ao grupo controle (Goldberg et al., 2023).
Um estudo de segurança cognitiva com CBD/THC (100 mg CBD + 3,3 mg THC, duas vezes ao dia) mostrou que o grupo tratado apresentou pior desempenho na fluência verbal animal quando ajustado para idade e educação, com eventos cognitivos adversos relatados pelo menos duas vezes mais frequentemente que no grupo placebo (Domen et al., 2023).
Limitações da Evidência Atual
As revisões sistemáticas destacam limitações metodológicas significativas. Uma análise de 14 estudos concluiu que os efeitos positivos descritos em estudos não controlados não foram confirmados pelos poucos e pequenos ensaios clínicos randomizados, com evidência insuficiente para reformar a legislação internacional sobre uso de cannabis na prática clínica da doença de Parkinson (Bougea et al., 2020).
Uma meta-análise concluiu que canabinoides provavelmente não diminuem sintomas na doença de Parkinson ou discinesia, e provavelmente estão associados a efeitos adversos frequentes (Bravo-Soto et al., 2017). A duração breve dos estudos e forte resposta placebo limitam a interpretação dos efeitos, sendo essenciais ensaios de maior duração e qualidade que monitorem concentrações de canabinoides (Liu et al., 2024).
Referências Científicas
- [1] Mitarnun, Witoon; Kanjanarangsichai, Auempa; Junlaor, Panomporn; Kongngern, Lisa; Mitarnun, Wenika; Pangwong, Wilasinee; Nonghan, Pawarin (2025). Cannabidiol and cognitive functions/inflammatory markers in Parkinson's disease: A double-blind randomized controlled trial at Buriram Hospital (CBD-PD-BRH trial).. Parkinsonism & related disorders. PMID: 40267585
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- [3] Varshney, Karan; Patel, Akash; Ansari, Siraaj; Shet, Pavan; Panag, Sohan Singh (2023). Cannabinoids in Treating Parkinson's Disease Symptoms: A Systematic Review of Clinical Studies.. Cannabis and cannabinoid research. PMID: 37253174
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- [8] Bougea, Anastasia; Koros, Christos; Simitsi, Athina-Maria; Chrysovitsanou, Chrysa; Leonardos, Athanasios; Stefanis, Leonidas (2020). Medical cannabis as an alternative therapeutics for Parkinsons' disease: Systematic review.. Complementary therapies in clinical practice. PMID: 32351233
- [9] Chagas, Marcos Hortes N; Zuardi, Antonio W; Tumas, Vitor; Pena-Pereira, Márcio Alexandre; Sobreira, Emmanuelle T; Bergamaschi, Mateus M; dos Santos, Antonio Carlos; Teixeira, Antonio Lucio; Hallak, Jaime E C; Crippa, José Alexandre S (2014). Effects of cannabidiol in the treatment of patients with Parkinson's disease: an exploratory double-blind trial.. Journal of psychopharmacology (Oxford, England). PMID: 25237116
- [10] Goldberg, Tomer; Redlich, Yonatan; Yogev, David; Fay-Karmon, Tsvia; Hassin-Baer, Sharon; Anis, Saar (2023). Long-term safety of medical cannabis in Parkinson's disease: A retrospective case-control study.. Parkinsonism & related disorders. PMID: 37211456
- [11] Bravo-Soto, Gonzalo A; Juri, Carlos (2017). Are cannabinoids effective for Parkinson’s disease?. Medwave. PMID: 28622283
As informações desta biblioteca são baseadas em revisão da literatura científica disponível e têm propósito exclusivamente educacional. A prescrição de cannabis medicinal deve considerar a avaliação clínica individual, histórico do paciente e regulamentação vigente. Decisões terapêuticas são de responsabilidade exclusiva do prescritor.
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